O MANDAMENTO DO SOLERA
Houve uma época em que repórteres, narradores e comentaristas esportivos davam o nome de "desconto" ao tempo extra, jogado no final das partidas de futebol. Não havia discussão a respeito nem havia quem questionasse a propriedade ou a impropriedade do termo "desconto".
Esta situação permaneceu por longo tempo, até que o narrador da Band, Fernando Solera, apareceu com a novidade: "Não pode ser desconto porque o árbitro não diminui o tempo; tem que ser acréscimo, porque o árbitro acrescenta tempo".
Estava criado o primeiro e único mandamento da lei do Solera.
Como se fosse um bando de papagaios de pirata, todo pessoal de rádio e TV passou a falar em acréscimo. E logo passaram a usar a expressão "acréscimos", provavelmente considerando que cada segundo acrescentado era uma "unidade de acréscimo".
A INVENÇÃO DA PLACA.
Eis uma questão que não diz respeito às coisas do futebol. Só existe porque a FIFA, para manter vivos o suspense e a tensão, não permite que apareça no tela o tempo real que falta para o fim de uma partida. Tanto é verdade que nos jogos de basquete e futsal, onde o tempo de jogo é do conhecimento de todos, ninguém discute a existência de acréscimo ou de desconto de tempo.
O que de fato ocorre é que o árbitro utiliza dois cronômetros simultaneamente: um trabalhando de forma ininterrupta e outro sendo pausado, a cada parada significativa no jogo. Como a decisão de quando parar e quando retomar a contagem do tempo é exclusiva do árbitro, os jornalistas esportivos ficavam na mais completa ignorância com relação à contagem real do tempo.
Reconhecendo a importância da mídia na divulgação do jogo de bola, a FIFA resolveu dar uma colher de chá aos jornalistas e fez com que fosse mostrado, em uma placa na beira do gramado, o total de minutos que a bola deixou de rolar, isto é: o período que ainda faltava para completar o tempo real de jogo.
O GATO DE SCHRÖDINGER.
Mas o que faz o árbitro ao parar o cronômetro quando o jogo é interrompido? Ele desconta o período não jogado, no exato momento em que a interrupção acontece. E os períodos a serem descontados vão se acumulando, à medida que as interrupções se sucedem.
Quando o cronômetro que trabalha sem interrupções acusa o tempo de 90 minutos que a regra manda, o árbitro confere a perda de tempo acumulada no segundo cronômetro e raciocina: "Não são noventa minutos exatos, porque tenho que descontar o tempo não jogado". Então, subtrai o tempo perdido e procede a compensação.
Para o observador distante, tal compensação é tomada como acréscimo de tempo - o que é, ao mesmo tempo, verdadeiro e falso, numa analogia ao gato de Schrödinger que está vivo e morto. Em verdade, com o uso de um cronômetro minimamente preciso, é possível comprovar que o jogo transcorreu por tempo superior a noventa minutos; entretanto, segundo as leis que regem o futebol, a duração de uma partida (sem prorrogação) é de noventa minutos, exatos. Nem mais nem menos.
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